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terça-feira, 9 de agosto de 2011

Memorial de formação pessoal de leitor

Acredito que algumas pessoas já nascem ávidas pela leitura, enquanto outras despertam para esse hábito mais tarde, seja por imposição externa, seja por necessidade, ou até mesmo por simples curiosidade. Penso que o ambiente conta muito neste processo e até mesmo nos auxilia, a nós, ávidos leitores e posteriores “escritores” (háháhá...), a criar um certo mito pessoal- como diria Jung- onde contamos e recontamos nossa história individual a quem interessar possa. Pois bem, cá estou a cavocar minhas rememórias, percepções fugidias, impressões que me deliciam e me apavoram, já que me fazem lembrar o quanto o dito “hábito da leitura” é um prazer, grosso modo, solitário. Pelo menos na aparência, já que o universo em que podemos estar inseridos nunca é algo que nos torna, digamos, individualistas. Nunca.
Verão, férias. Nesse dia ela resolveu levar a filha junto para o trabalho.
Depois das andanças pelo mundo, foto em todos os continentes, domícilio naquele país de calor infernal, mas mesmo morando num trailer, enfim...
Vai carregando duas malas, cheias do doce mais doce que muitos poucos hão de negar.
E a filha vai junto.
O corpo tão magro sustenta o peso do trabalho diário. Há suas compensações, até porque naquele tempo era possível vender tantas coisas em lugares que atualmente,
Mas hoje a filha, e a promessa do fim do dia, ou só quem sabe eu termino bem rápido daí a gente até pode ir embora mais cedo, que tal?
Nada que um x-salada com guaraná não resolvam no fim do dia, mas enquanto isso...
Duas malas cheias, imensas, recheadas com todos os tipos de bombons caseiros mais simpáticos do mundo, eu olhava a cara dela e ficava impressionada em como ela podia ser tão divertida e legal com todo mundo.
Mas nunca reparei no seu corpo tão magro.
E como fazer com a filha? Nas cidadezinhas que visitava, lembro umas quantas vezes do combinado, e lá me via só, cercada de uma infinidade de livros e uma ou outra cara simpática que havia prometido a ela ficar de olho em mim. Então o tempo, esse senhor risonho que se diverte às nossas custas, parece que se sentava numa poltrona e ficava lá, olhando, enquanto eu caminhava lentamente em direção àqueles tantos mundos imaginários.
Nenhum deles desabitado, por certo.
Rememórias, sonhos que se mesclam com nosso próprio desejo, mundos temporários, diálogos sem fim, todos ecoando...
Até a hora do sanduíche, da risada e das histórias,
Depois a biblioteca em casa, no sítio, tão minúscula e abarrotada, onde a delícia era o descobrir, simplesmente. E haverá uma delícia que não essa a quem gosta de ler? Descobrir, redescobrindo, para então construir, e reconstruir uma vez mais...
A linguagem sempre me fascinou. A beleza da sonoridade de certos poemas, até mesmo de certas palavras ditas em outra língua muitas vezes me maravilhou, a despeito de certa incompreensão de alguns. Acredito que muita dessa “incompreensão” seja advinda do fato de que em nosso país carecemos de cultura. Não no sentido objetivo, até porque vivemos em um país riquíssimo em termos culturais (climáticos também!) mas algo ligado ao tempo, àquele momento em que podemos simplesmente embarcar, deixar de lado nosso pequenograndeEu e simplesmente seguir uma corrente...navegar por um breve lapso de tempo e em seguida retornar, para então compartilhar. O acréscimo sempre me pareceu óbvio, até porque há tantos estilos e variantes no mundo literário que, por mais difícil que pareça, sempre haverá algo lá, feito especialmente para você. Essa a sensação ao encontrar aquele livro, aquilo. Ali, esperando por mim, e como diz um dos personagens de Sérgio Caparelli
...e dentro, tem um papel escrito, uma carta. São palavras dormindo esperando alguém ler. Com os olhos, qualquer um pode acordar as palavras.
Então o curso da vida, seus acertos e enganos. E depois de tanto tempo, o desejo tomando forma, finalmente uma graduação (não que isso lá grande!)
Mas o método ainda é pouco, ou a instituição não seja lá, enfim...vislumbres do que pode ser, tempos de discussão e de tarefas (menos, muito menos do que imaginei...e, afinal, pra que tanto papel?)
Folhas soltas ao vento, breves parágrafos do todo, alguns capítulos interessantíssimos e dignos de teses de mestrado, mas algo pulsante ainda espera- o que? O tempo, risonho, não espera. Ao contrário, envia mais e mais e mais e mais.
E a vida passa.
E o filho cresce.
E outro nasce.
Fazer da vida sua própria obra é fazer o que a personagem de Toni Morrison, Baby Suggs, sagrada, faz naquela clareira,
Depois de se situar em uma imensa pedra chata, Baby Suggs baixava a cabeça e rezava em silêncio. A congregação observava das árvores. Sabiam que ela estava pronta quando baixava seu bastão. Então ela gritava: “Que venham as crianças!”, e eles corriam das árvores para Baby Suggs.
“Que suas mães escutem o seu riso”, ela dizia, e o bosque vibrava. Os adultos olhavam e não podiam deixar de sorrir.
Então “que venham os homens adultos!”, ela gritava. Eles avançavam um a um do meio das árvores ressonantes.
“Que suas esposas e seus filhos vejam vocês dançarem”, ela dizia a eles, e o chão tremia vivo sob seus pés.
Por fim, ela chamava a si as mulheres. “Chorem”, dizia a elas. “Pelos vivos e pelos mortos. Só chorem”. E, sem cobrir os olhos, as mulheres se soltavam.
(...) No silêncio que se seguia, Baby Suggs oferecia a eles o seu grande imenso coração.
Não lhes dizia para limpar suas vidas ou ir e não pecar mais. Não lhes dizia que era abençoados na terra, seus mansos herdeiros ou seus puros à glória destinados.
Dizia-lhes que a única graça que podiam ter era a graça que conseguissem imaginar. Que, se não vissem isso, não a teriam.
“Amada” foi o último romance que li. Um desses livros que a gente tem vontade de, em certos trechos, jogar na parede (como John Irving, aliás...). E por quê?
Por quê?
A resposta a tal pergunta talvez seja o próprio pulsar da vida,
Aquilo que nos faz seguir adiante mesmo depois de tanta dificuldade,
De tanta dor.
Porque, ainda segundo o velho Jung, temos esse imenso mar inconsciente que nos liga, a todos, sejamos jovens ou velhos ou brancos ou pretos ou homem ou mulher ou eu ou você.
Então, sim, a trama de um texto, significa para mim, como leitora, algo tão primordial e básico quanto o ar que respiro. Ou o alimento que me sustenta dentro de um mundo onde por vezes sou a criatura e em outras tantas a Criadora.





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