
E eu mesmo não sei se sou um falcão,
uma tormenta
Ou um grande canto.
Há dias venho pensando nisso.
Inda há pouco, conversando com Adèle, comecei a me escutar e percebi que, no final, aqui é o lugar certo. E quando deixar de ser (ou isso ou aquilo), tudo bem do mesmo jeito.
O personagem Chamdi diz, em uma oração, eu prometo tentar ser feliz. Quase coloquei de lado a história, mas ali tem algo. O menino órfão cria para si Kahunsha que, para ele, significa " a cidade sem tristezas". Vivendo em Bombaim em meio à violência e pobreza, o mundo ainda guarda um significado oculto para o meninno com costelas de dente de elefante. As histórias sempre me encantaram, e também os contadores de histórias...acho que por isso me encanta quando Chamdi quer saber quantos idiomas existem nesse mundo. Um dia ele vai criar o seu próprio idioma. Este pensamento o deixa feliz. Vai inventar palavras que só podeerão confortar, nunca ferir. Mas Chamdi se pergunta se as pessoas da Terra terão o poder de falar com beleza.
Aí está o cerne da questão. Onde fica a beleza de cada momento? Desse momento? Dos encontros? Trabalhando e servindo em grupo é quase possível tocar essa beleza. Mas é bom que não, que a gente deixe que aconteça em nós sem que estejamos muito presentes nela...
Como minha irmã, desejo esse caminho, mas ainda há os outros serviços a serem feitos dentro da própria família, da própria célula-comunidade, do carma.
Fica a beleza do inesperado também! A pequena se move, é beijada pelo irmão através da pele da minha barriga, sente aquilo que sinto, ouve minhas risadas e (muito menos) meus lamentos. E ali, abrigada, protegida, se prepara...será que sente meu temor? Breve, muito breve, mas a lembrança do que é exigido naquele momento é algo muito forte para ser esquecido. A sensação de pular de um abismo deve ser parecida, mas tudo bem, tudo bem...apesar da pressão bem normal, preciso pôr em ordem meus pensamentos e sentimentos. Toda noite assim, breves momentos de imersão no essencial. A ordem, tão amada, muito interna e curativa, se é que cabe no contexto...na retrospectiva do dia, fica a alegria de Nicolás ao ver umas galinhas passeando pela calçada enquanto íamos ao postinho.
Impressiona, não? Galinhas! No bairro! E passeando pela calçada! Ficou mais leve a subida com o carrinho, pausa para respirar e deixar ir pensamentos preguiçosos e não tão bons quanto ao carro estar na oficina por tanto tempo porque bateram nele e todas as contas por pagar e aquela bobagem de o que será que devo aprender com isso? Pausa. E tudo está como tem que estar.
Agora entende por que está enxergando as buganvílias na escuridão. Ele está dizendo adeus. Se tivesse que partir durante o dia não iria aguentar. Agradece-lhes pelas cores que lhe deram, então corre até elas e pões na boca as pétalas vermelhas, sem se preocupar com os espinhos. Elas também me amam, pensa Chamdi, enquanto as flores roçam sua pele (...)
A canção de Kahunsha
Anosh Irani
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